Hoje faz sete meses que perdi minha mãe, por uma doença que a levou de forma avassaladora. Eu nunca havia presenciado algo tão cruel e doloroso em toda a minha vida nos 13 dias em que fiquei perto dela no hospital. Voltei ao Brasil em uma viagem feita à toque de caixa, afinal tive que desarmar mais de sete anos de vida em outro país. Eu pensei que fosse passar mais um, dois anos ao lado dela. Não tinha a dimensão do problema imenso que ela estava enfrentando. E mesmo se tivesse, jamais pensaria que em menos de duas semanas de volta, estaria escolhendo sua última roupa numa manhã pálida, três dias após seu aniversário. Desde então, não passa um dia sequer sem que eu chore uma dor que jamais caberá em mim.
Já perdi o rumo bonito muitas vezes, e me levantei e toquei o barco "one way or another". Mas nada chega perto da imensidão do vazio que virou minha cabeça. Um astronauta que teve seu cordão rompido ainda flutua no espaço sem som, sem ar. Resta a ele observar o vasto e intangível caminho que o levaria de volta ao seu planeta, à sua casa, nadando em uma gravidade muito baixa que jamais poderia arrastá-lo de volta à sua nave. Eu não sou esse astronauta. Estou bem perto das minhas coisas materiais, meus pés ainda estão plantados na terra. Ms assim como o viajante estelar, eu não vejo nada além de uma grande escuridão com parcos pontos de luzes distantes aqui e ali. Perdi o fio da meada, o mote e o pouquinho de esperança que ainda tinha sobre os dias seguintes. Sete meses deveriam ser mais do que suficientes para acalmar meu luto e clarear minha estrada.
Eu não conto mais o tempo, não ouso fazer planos para mais do que algumas horas adiante. Já não tenho o poder de prever se estarei lá na hora marcada, se minha cabeça vai me acompanhar num possível compromisso. Aí eu evito compromissos. Desfaço planos e, muitas vezes pronto para sair, giro a chave de volta e me fecho no meu imenso metro quadrado. Talvez eu já tenha vivido tudo o que tinha para viver. Penso, penso, penso e não consigo concluir ou contemplar um caminho novo, uma virada. O mundo não parou lá fora. Nesse aqui onde vim parar, a gravidade esmaga e um passo equivale a uma maratona empurrando um 747 com o pescoço. Quando consigo atravessar a porta de casa, é como se estivesse dentro de uma cápsula fervente voltando à atmosfera.
Eu costumava encontrar abrigo na música, nas drogas e até em algum tipo de fé. Hoje tudo é espaço. No vácuo, as ideias não crescem, e os ouvidos só escutam os ruídos confusos que se produzem bem dentro de mim. Não sei se um dia voltarei a caminhar normalmente. Precisaria ter uma vontade mesmo que mínima para tentar seguir. Deveria estar desesperado, correndo atrás do prejuízo. Vou ligar meu contrabaixo.
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