segunda-feira, 23 de maio de 2016

Apropriação devida

Depois de tudo te amarei
como se fosse sempre antes
como se de tanto esperar
sem que te visse nem chegasses
estivesses eternamente
respirando perto de mim.

Perto de mim com teus hábitos,
teu colorido e tua guitarra
como estão juntos os países
nas lições escolares
e duas comarcas se confundem
e há um rio perto de um rio
e crescem juntos dois vulcões.

Perto de ti é perto de mim
e longe de tudo é tua ausência
e é cor de argila a lua
na noite do terremoto
quando no terror da terra
juntam-se todas as raízes
e ouve-se soar o silêncio
com a música do espanto.
O medo é também um caminho.
E entre suas pedras pavorosas
pode marchar com quatro pés
e quatro lábios, a ternura.
Porque sem sair do presente
que é um anel delicado
tocamos a areia de ontem
e no mar ensina o amor
um arrebatamento repetido.

Pablo Neruda

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Montón

"My hero, zero", de Bob Dorough toca baixo nas quatro caixas que deixam cantar também a chuva mansa que batuca na janela. Esse disco, o "multiplication rock", chegou não sei de onde, e quem pescou fui eu, num daqueles rompantes de vida que vez ou outra me bate à porta.

Agora toca o Capitão Cabeça de Bife, que por escolha própria executa "this is the day". Essa é uma das mais belas canções dos últimos giros que a raça deu no sol:

This is the day that love chose to play,
The day love came to stay,
This kiss is for the first time,
And this kiss is for that time
Love to ride
This is the day that love chose to play
One minute here, one minute there
Love spent time everywhere,
This day that love chose to stay

Imagine só experimentar todos os dias o sabor do primeiro dia em que o amor me visitou.

Todos os dias espero e encontro o meu amor, que vai comigo e que volta para mim, com um entusiasmo poucas vezes visto nessa rua, nessa cidade e ao redor do mundo dos homens e mulheres e crianças e bichos e de dias e instantes.

As cartas que tenho escrito, somadas aos livros que escrevo e filmes e fotos que gravo em minha cabeça de gravar me tomam todo o ímpeto de seguir digitando impressões de todas essas luas jupterianas que orbitam a ponta dos meus dedos.

Vivendo, enfim, volto à vida de maneira plena, qual seja, a de continuar, como num plano-sequência, o exercício de alimentar o amor.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Luinha

Fechando os olhos de sono. Quando voltar a ver, no incrível ato de acordar para a vida amanhã cedinho, a vida estará a me esperar, com seus olhos de doce e algodão mais puro que o ar do Himalaia.

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Escrevo e durmo. Estimado caderno meu, obrigado por ainda piscar seu cursor sob os olhares atentos de quem quer rabiscar a alma com todas as cores de uma criança. Todos os olhares de um ancião que já viu quase tudo.

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Nada de drama,
nenhuma fotografia em tons de sombra.

Toda a sombra para repousar,
e só para repousar.

...

Um amor assim tão

Amanhã cedo

 queremos mais. Vamos dormir, então.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Cortejo fúnebre número tal

https://www.youtube.com/watch?v=-_itPJ5N_AA

Dona Maria de Lourdes - Sérgio Sampaio

Os automóveis estão invadindo
A simpli(s)cidade
Enquanto a gente se arrasta
Eu prefiro isso aqui
Os automóveis são livres e agora
É preciso coragem
Olho meu rosto no espelho
E depois vou dormir

Entre as flores escondidas
Do riacho
Por debaixo do que der
Do que vier
Escondido das notícias
Entre as feras
Nas revistas sem assunto
Meu amor

O auditório aplaudiu a canção
E eu cantei novamente
Fique de olho na vida
O sinal vai abrir
O auditório aplaudiu
Mas cuidado com a porta da frente
Dona Maria de Lourdes
Não espere por mim

Que eu estou no paradeiro
Dessa gente
Quem morreu, quem teve medo
Quem ficou?
Eu estou no bar do Auzílio ou na igreja
E onde quer que eu esteja
Eu não estou



(Para Silvio Grion, além da família desse aqui)

O amor te chama pelo nome

ONCE AGAIN https://www.youtube.com/watch?v=Dkyiu3GZ8eQ


Love Calls You By Your Name Lyrics

You thought that it could never happen
To all the people that you became,
Your body lost in legend, the beast so very tame.
But here, right here,
Between the birthmark and the stain,
Between the ocean and your open vein,
Between the snowman and the rain,
Once again, once again,
Love calls you by your name.

The women in your scrapbook
Whom you still praise and blame,
You say they chained you to your fingernails
And you climb the halls of fame.
Oh but here, right here,
Between the peanuts and the cage,
Between the darkness and the stage,
Between the hour and the age,
Once again, once again,
Love calls you by your name.

Shouldering your loneliness
Like a gun that you will not learn to aim,
You stumble into this movie house,
Then you climb, you climb into the frame.
Yes, and here, right here
Between the moonlight and the lane,
Between the tunnel and the train,
Between the victim and his stain,
Once again, once again,
Love calls you by your name.

I leave the lady meditating
On the very love which I, I do not wish to claim,
I journey down the hundred steps,
But the street is still the very same.
And here, right here,
Between the dancer and his cane,
Between the sailboat and the drain,
Between the newsreel and your tiny pain,
Once again, once again,
Love calls you by your name.

Where are you, Judy, where are you, Anne? 
Where are the paths your heroes came? 
Wondering out loud as the bandage pulls away,
Was I, was I only limping, was I really lame? 
Oh here, come over here,
Between the windmill and the grain,
Between the sundial and the chain,
Between the traitor and her pain,
Once again, once again,
Love calls you by your name.

domingo, 13 de setembro de 2015

Paralelo Trinta





Os dois saem feridos. O mais velho não sobrevive.

Cuidado com os testes, nobre instituto de segurança.


terça-feira, 11 de agosto de 2015

Vicinal



"A pequena rodovia que liga o continente à sua morada passa a maior parte do tempo submersa. Embora esteja distante apenas alguns quilômetros da cidade vizinha, o abrigo da Duquesa de Doblevê parece se perder na noite. Nenhuma luz e nem mesmo a lua ilumina as redondezas daquele mar que parece calmo. Quantos perigos existem nessa estrada, quando finalmente se pode atravessá-la? Será a ilha só mais uma visão atormentada pela solidão de seu habitante? O que será que esconde o porão mais empoeirado de suas entranhas? Ficaria feliz o incauto viajante ao entrar na ante-sala e sentir o cheiro das velas do candelabro, responsavelmente próximas das espessas cortinas de cor púrpura com as quais se esconde do vasto mar? Desejaria permanecer em seus aposentos depois da quaresma e do dar-de-ombros?"

Dos impostos

O pedágio sobrevive às marés mais altas, e a maior das ressacas não o derruba. E, como se não bastasse a insistência de seu operador em aumentar a tarifa, agora deu para cimentar a passagem. Vomita medo, sofre de insônia e enfrenta os maiores calafrios para manter juntos os pés brancos de quem já fez a travessia e agora volta. Mudou-se também para dentro da ilha, e dele não se ouviu mais falar.

Do bandido

Como se atleta fosse, prefere arriscar a vida nadando do que pegar o próximo bote. Foi visto pela última vez comprando frutas no armazém de portas estreitas e altas de seu bairro. Sentiu-se nele forte odor de cigarros, como se em seu quarto ficara por meses, ocupando-se em queimar seus filtros brancos e compor músicas médias. Dele não se sente saudade, muito menos pena. Isso é o que ele pensa, pobre bandoleiro. O bandido não sente remorso e nem se importa com sua aparência de homem velho e gasto. E, tomado pelos escuros óculos de sol de sua paixão, ignora o nevoeiro que paira sobre seu caminho.

Da estrada

Flores estampadas, espuma, um brinco, borrachas, camarão, capital, alguns quartos, ruído, cartas enroscadas nas árvores de outono, tomadas, discos, uma bolsa pequena feita à mão, alarme, garagem, medo, insegurança, constrangimento, fotografias, fast food, álcool, mãe, pai, satélite, pedágio, chinelo, irmão, ponto, vírgula e música. Muita música. 











domingo, 26 de julho de 2015

Emprestado

Tradução da canção "Ticket to the moon", de Electric Light Orchestra. Porque esse disco (Time, 1980) invade minha vida e não é possível deixá-lo passar.


Bilhete Para a Lua

Lembre-se dos bons velhos tempos de 1980,
Quando as coisas estavam tão simples.
Eu queria poder voltar lá de novo,
E tudo poderia ser o mesmo.

Eu tenho um bilhete para a lua.
Eu vou partir daqui qualquer dia, em breve.
Sim, eu tenho um bilhete para a lua,
Mas eu prefiro ver o nascer do sol, em seus olhos.

Tenho um bilhete para a lua,
Eu vou subir bem acima da terra tão cedo.
E as lágrimas que eu choro podem se transformar em chuva,
Que gentilmente caem em cima de sua janela.
Você nunca vai saber.

Bilhete para a Lua
Voar, voar através de um céu perturbado
Até um novo mundo brilhante.

Voando alto,
Planando loucamente através dos mistérios que vêm.
Imaginando com tristeza se os caminhos que me trouxeram até aqui
Poderiam mudar, e eu iria vê-los lá.
Estando lá.

Bilhete para a lua,
O avião sai daqui hoje do satélite 2.
Enquanto os minutos passam, o que hei de fazer?
Eu pago a tarifa, mas o que mais posso dizer?
É apenas uma maneira.

Bilhete para a lua.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Emenda


Acaba um litro,
corro e abro outro
mais forte.

Caderno sem espaço,
invento novas folhas
com tinta de soluço.

Finda os olhos,
busco seus cabelos
de olhos fechados.

Começa a convenção,
derrubo a tradição.
E secando a alma,
lavo o coração.

Movimento n° 8

Eu mar
Você, terra casa
Vou descalço,
Você calça

Eu caço
Eu apanho
A casa chama
E apaga

Você âncora
Nós desatam
Eu remo
O mar arrebenta

Eu céu
Você lua
Ele nuvens
Nós magnéticos

Eu rio
Ele água

Ela nada
Nó de nós

Sujeito primeiro
Sujeita
O seu jeito
De singular

O mar de mim
Aos nós de alma
Suas velas
De nós a casa



terça-feira, 21 de julho de 2015

Reposado

11 anos de lixeira. O caderno mais reciclável (e sendo assim, o mais duradouro e preservado que possuo) da semana.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Cabeça magnética




Muito canais, um só rolo de gravação. Milhares de botões preparando a música para quem só espera "dar o play". 

"Eu quero que esse afeto saia, eu quero que esse teto caia", disse Walter Franco em Mixturação, primeira de "Ou Não". E que, enredado com o Sampaio, está cantando a desconstrução de quem escuta com todos os sentidos. 

               Escuto o vento seco das manhãs, e não entendo. O barco que ajeitei tem as velas impecáveis e prontas para as milhas náuticas atravessar. 


                                       O papel acaba. 



Sula granti


http://users.wfu.edu/djanders/labweb/reprints/Anderson%20et%20al%20NAV%202004.pdf

https://www.youtube.com/watch?v=lw5MZqi91Jk

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Segundo

Ontem a vida de todo mundo ganhou um segundo no tempo. Ontem as horas do meu dia testemunharam sublime produção e honesta arte, e não perdi nenhum minuto. A noite, essa sim, chegou com horas a mais no meu dia. A lua, esse astro íntimo, anda atrasando meu relógio mundano, pura biologia. Rasgando livros e escrevendo com pulso firme os tantos dias que estão por vir no acostamento do meu encontro.

Um segundo não existe. Duas horas não fazem sentido. Cem anos é pouco.

Não sei porque a queixa, já que, entre tantos segundos, já fui primeiro. Minh´alma quieta dobrou os ponteiros em movimentos metafísicos. E gritando também quebrou preciosidades antigas por capricho e deu corda para vistosos e despenteados amores.


Coração: Meu tempo é agora
Relógio:  Não sejas tolo, pobre coração. Bem sabes que eu não existo.
Coração: Então hei de criar um mundo onde as horas sejam verdade.
Relógio: Inútil tarefa, pobre colega.

E o relógio se apressou para explicar ao inquieto coração a seguinte sentença:

"Aqui na sua Terra também existe verdade. Pule nesse seu mar e sentirá a força do tempo fantasma, do tempo agora. O mar de verdade não perdoa o tempo. Se lhe faltar a superfície, breve humano, vai sucumbir ao chão desse oceano em poucas voltas do segundo."

E o mar assistiu e escutou, e pensou quieto e falou comigo. E suas palavras escrevo, quais foram: "Esse papo não tem fim, é inútil compreender. Eu sou quem congela e quem dá calor. Não preciso do tempo, e meu coração sai de mim em estrela e volta em nuvens. Eu me abasteço de mim, mas não sou auto-suficiente. Eu não seria tão grande sem esses tolos e bravos banhistas de amor e de tempo. Perderia meu sentido se em mim não navegassem precárias jangadas e imponentes naus, saindo e voltando para a terra firme do tempo e para os braços de seus amores. Será que existe mais valor nos peixes, que nem sequer sabem que você, pequeno humano, precisa sempre voltar à superfície, e que não vive sem terra firme? Ou teria o nobre humano seu elevado valor justamente por sua qualidade de amar o tempo?

O tempo não vive de respostas, e o amor não faz perguntas.




domingo, 28 de junho de 2015

Água e sal

Mixturação
Walter Franco

O raciocínio lento,
O poço, pensamento,
O olho, orifício,
O passo, precipício.
Eu quero que esse teto caia.
Eu quero que esse afeto saia. Eu quero que esse teto caia.
Eu quero que esse afeto saia.
Em vermelho natural,
Com gosto de água e sal,
No rosto e no lençol,
Misturando o bem e o mal.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Prenda Luz




De longe, pode-se ver 
mas não se aproveita. 
Quando muito próxima, ofusca os olhos 
de quem com a alma antes cativou.

De alma também
respira o proprietário

Daquela luz, que toca
Que canta e grita no alvo.
Distante, parece estar dentro
das frequências e das cores.

De calma também
vive o proletário.


domingo, 14 de junho de 2015

Juniño

Viva São João pássaro proibido...
...
Céu de estrela sem destino...
...
Da beleza e da razão...

sábado, 6 de junho de 2015

Vírgula e ponto

"Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio o vento
Na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade"

Bom conselho, de Francisco Buarque.